Série: O Início de Brasília – a História além da notícia – Parte 3/4

                   
0
428

Por Denilson Alexandre Coêlho

O ano de 1960 apresentou um clima de expectativa e receio para o país. Foi o ano em que, finalmente, a capital do país foi transferida do litoral para o interior do Brasil. Desde o século XIX os brasileiros esperavam por esse momento e, ao assumir a presidência da República, Juscelino Kubitscheck empreendeu uma monumental obra para, em fim, construir Brasília.

O dia 21 de abril de 1960 foi um marco para a população brasileira. Com a inauguração de Brasília, o Brasil voltou os olhos para a nova capital e para o que ela poderia proporcionar a todos. A esperança e a desconfiança destacadas nos principais jornais da época retratam os sentimentos de todo um povo, ansioso por mudanças.

Mais de meio século depois da inauguração de Brasília resta uma pergunta: O que falavam os jornais naquele dia 21 de abril? Afinal, era o dia da inauguração de uma cidade que se tornaria a capital do maior país da América Latina. E mais, era o dia em que, oficialmente, seria finalizada a construção da cidade mais moderna do mundo, até então. Construção essa que durou incríveis 3 anos e dezessete dias.

Mas resta outra pergunta: os jornais falaram tudo de Brasília? Não, os jornais apresentaram um dia de festa e de louvor. Este seria um dia para apresentar as mazelas de Brasília? Os jornais deveriam informar os problemas da nova capital ou apenas celebrar o dia da inauguração? Era o momento para criticar a transferência ou era apenas o momento de agradecer pela nova capital?

A imprensa escrita, em sua maioria, decidiu apresentar um dia de agradecimentos, comemorações e esperanças. O único jornal analisado que se aprofundou em críticas mais contundentes foi o Jornal do Brasil, que tratou de problemas como a inexistência de depósitos de lixos, a luta de 60 mil “favelados” que buscavam seus direitos básicos e a falta de moradia, inclusive para os Deputados. Os demais jornais apenas informaram sobre os problemas que os Deputados sofreram com suas novas moradas.

Nenhum jornal entrevistou um candango que ajudou na construção da capital. Apesar de JK ter agradecido todos os operários por sua incrível façanha de erguer uma cidade em três anos. Ficou apenas a voz oficial do presidente. Faltou a voz e a opinião daquele que construiu, mas não ocupou a capital: o candango. Como afirma James Holston:

Os planejadores haviam invocado a idéia de uma capital para justificar não apenas a subordinação política dos candangos nas cidades-satélites mas também para excluí-los do Plano Piloto. Incluí-los teria sido violar “a finalidade precípua de Brasília – cidade administrativa – com predominância absoluta dos interesses dos servidores públicos e suas famílias. (1993, p. 279).

Em outras palavras, Brasília foi construída para abrigar os funcionários públicos e não os operários que trabalharam nela. Para onde foram os candangos, aqueles que construíram Brasília? Foram para as cidades-satélites, que não estavam previstas para serem criadas. “Nem o plano piloto de Lúcio Costa nem as diretrizes originais da Novacap previam a criação de cidades-satélites no Distrito Federal.” (HOLSTON, 1993, P. 257). Por que os jornais não falaram da exclusão dos operários? Aqueles que JK tanto elogiou. Mas será que o dia da inauguração era realmente o dia para falar sobre esse assunto?

Outro ponto a ser destacado é a questão de Brasília e a possibilidade de progresso social e econômico para o interior do Brasil. Milton Santos explica que Brasília foi “indicada para ser um remédio eficaz para atenuar os famosos desequilíbrios regionais brasileiros e, assim, os problemas de distribuição da população (…) e, igualmente, uma solução para a inflação galopante. Que tanto reduz o esforço nacional para vencer o subdesenvolvimento. (2012, p. 127). Esse foi um ponto amplamente tratado nos jornais, pois é um fato que traz esperança para todo o país e a expectativa de um país mais forte social e economicamente.

O 21 de abril de 1960 foi um dia de grande expectativa para todo o país. Os jornais optaram por apresentar notícias de exaltação e engrandecimento deste dia. Poucos foram os que mostraram as mazelas da nova capital. O questionamento se os jornais deveriam informar todas as faces de Brasília logo no dia de sua inauguração fica a critério de cada um. A criação da capital foi vista por todo o mundo. Será que era interessante para a imagem do país mostrar seus defeitos e erros? Ou os jornais fizeram certo em apresentar principalmente a glória dessa monumental criação genuinamente brasileira?

Fica a dica!!!

Quer saber mais? Leia:

Congresso em foco: jornalismo para mudar. Disponível em <http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/na-inauguracao-brasilia-era-retratada-entre-esperanca-e-desconfianca/>. Acesso em 24 de março de 2016.

Folha de São Paulo. Disponível em: < http://acervo.folha.uol.com.br/>. Acesso em 24 de março de 2016.

HOLSTON, James. Cidades de Rebelião in A Cidade Modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. [pp. 257-288].

O Globo. Disponível em <http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/jk-inaugura-brasilia-9385770>. Acesso em 24 de março de 2016.

SANTOS, Milton Reflexões em torno da nova capital. In KATINSKY, Julio; XAVIER, Alberto (orgs.) Brasília: Antologia Crítica. São Paulo: Cosac Naify, 2012. [pp. 125-135].

Deixe aqui um breve comentário.