Série: O Início de Brasília – Como foi apresentada nos jornais? Parte 2/4

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

A inauguração de Brasília foi noticiada nos principais jornais do país. No dia 21 de abril de 1960 os olhares da mídia se voltaram para a nova capital do Brasil. Todos estavam curiosos em saber como seria essa nova fase da nação.

Os jornais da época não divergiam muito na forma como as matérias foram escritas. Eram discursos muitas vezes institucionais, com entrevistas de autoridades. Traziam também conteúdos midiáticos, com o objetivo de vender seus periódicos, afinal, em um mundo capitalista, o lucro é primordial para a sobrevivência de qualquer instituição comercial. As notícias memorialísticas também estavam presentes, entretanto, em menor número, pois o mais importante eram as informações do momento, do cotidiano, da sociedade.

Resultado de imagem para correio braziliense 31 de abril 1960Alguns jornais apresentaram conteúdos específicos sobre o nascimento oficial da nova capital do país. O periódico Diários Associados que abrangia os jornais “O Jornal, Estado de Minas, Folha de Goyaz e Correio Braziliense” apresentou uma edição comemorativa retratando diversas reportagens sobre o dia 21 de abril de 1960. O Correio Braziliense teve um motivo especial para comemorar, pois no mesmo dia em que Brasília nascia, suas matérias voltavam à circulação depois de 137 anos. O jornal Folha de São Paulo publicou três cadernos diferentes no mesmo dia, todos com notícias sobre Brasília, Brasil e o mundo, mas cada um com suas peculiaridades. O Jornal do Brasil destacou como matéria de capa “Brasília é feita capital, Guanabara nasce com festa”, fazendo referência ao nascimento simultâneo de Brasília e o Estado da Guanabara (extinto anos depois). O Jornal do Commercio tratou principalmente da homenagem eclesiástica de Portugal à Brasília. Por fim, o Correio da Manhã ressaltou as críticas contra a inauguração. Os jornais de maneira geral foram concordantes nas informações apresentadas com poucas diferenças relativas a críticas e elogios.

Brasília é a capital da esperança. Foi o que todos os jornais falaram, cada um à sua maneira. As entrevistas e discursos inflamados a favor de Brasília proferidos por Juscelino Kubitscheck – JK (Presidente da República), Israel Pinheiro (Prefeito de Brasília), Ranieri Mazzili (Presidente da Câmara dos Deputados) e Tancredo Neves estão em destaque na maioria dos jornais. Há também pesadas críticas, principalmente em relação às condições dos apartamentos dos Deputados, muitos sem mobília, sem pintura nas paredes, elevadores sem funcionamento, além da falta de depósitos de lixo na capital e dos “favelados” de Brasília. JK, em seus discursos, deixava clara a participação magistral dos candangos na construção da nova capital.

Quanto ao cotidiano dos cidadãos recém-chegados, os jornais retrataram fatos relativos à religião, saúde, música, segurança pública e hábitos alimentares. A religião em Brasília era predominantemente católica, seguindo os dados do Brasil (também maioria católica). Esse dado reflete as inúmeras notícias informando sobre a missa de inauguração e a benção papal para Brasília. Apenas o Diários Associados noticiou sobre a saúde pública. Sua reportagem traz elogios quanto à rapidez e eficácia no atendimento à população enferma. Já em relação à música, a preferida da população brasiliense, segundo o Diários Associados é a clássica; nem samba, nem bolero, somente, clássica. O Correio Braziliense destacou que a comida favorita do candango é o feijão, arroz, farinha, carne, doce e queijo. E lança a indagação se futuramente esses hábitos alimentares permanecerão ou não.

A segurança pública foi um assunto que mereceu destaque nas edições dos jornais Correio Braziliense e Diários Associados daquele 21 de abril de 1960. Entretanto, em nenhum momento critica-se a atuação da polícia ou a falta dela. As principais notícias são sobre balanços e estatísticas sobre a criminalidade do ano de 1959 e, principalmente, as palavras do General Osmar Soares Dutra, Diretor do Departamento Regional de Polícia de Brasília. O General deixa claro, em alguns pontos de suas entrevistas ao Correio, que o motivo de Brasília ter níveis baixos de criminalidade é o fato de a população ser composta de trabalhadores que sabem se comportar em sociedade.

Os diversos jornais brasileiros apresentam informações do cotidiano da recém criada população brasiliense. Dados que apenas informam o início de uma cidade, ainda em construção. O principal expoente dos jornais é a expectativa quanto ao futuro desta cidade e o que ela poderá contribuir para o futuro do país.

Fica a dica!!!

Quer saber mais? Leia:

Congresso em foco: jornalismo para mudar. Disponível em <http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/na-inauguracao-brasilia-era-retratada-entre-esperanca-e-desconfianca/>. Acesso em 24 de março de 2016.

Folha de São Paulo. Disponível em: < http://acervo.folha.uol.com.br/>. Acesso em 24 de março de 2016.

HOLSTON, James. Cidades de Rebelião in A Cidade Modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. [pp. 257-288].

O Globo. Disponível em <http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/jk-inaugura-brasilia-9385770>. Acesso em 24 de março de 2016.

SANTOS, Milton Reflexões em torno da nova capital. In KATINSKY, Julio; XAVIER, Alberto (orgs.) Brasília: Antologia Crítica. São Paulo: Cosac Naify, 2012. [pp. 125-135].

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