Série: UM PANORAMA DA GLOBALIZAÇÃO E DO CAPITALISMO – Parte 8/9: UMA NOVA ERA

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

Com o fim do socialismo como política hegemônica, simbolicamente datado em 1989, uma nova ordem mundial se instalou. Este fato se deu apenas formalmente, pois desde os fins da década de 70, o socialismo já dava sinais de cansaço enquanto países capitalistas já se tornavam novamente grandes potências. Todavia, as décadas de 1990 e 2000 foram marcadas por grandes crises no mundo capitalista. Em 2008 a chamada bolha imobiliária abalou as estruturas financeiras dos Estados Unidos resultando num efeito cascata ao restante do mundo. Diante de tais acontecimentos, pode-se afirmar que o capitalismo está em sua fase final? O que mudou para o mundo após o fim do socialismo da URSS?

O que os grandes pensadores afirmam sobre o fim do capitalismo?

Para Immanuel Wallerstein, o capitalismo realmente está em sua fase final. Segundo ele “pode ser que saiamos da transição do capitalismo histórico para alguma outra coisa, por volta de 2050, com um novo sistema (ou vários sistemas)” (WALLERSTEIN, 2001, p. 250). Não é possível datar o fim de um sistema, Wallerstein apenas informou um dado que talvez possa ocorrer em um futuro próximo. Assim, afirma em outra passagem: “Pode-se dizer que esta fase começou simbolicamente em 1989 e continuará por no mínimo 25 a 50 anos” (2001, p. 250), ou seja, o capitalismo está se encaminhando para o fim.

Em outra posição, Zygmunt Bauman afirma categoricamente que “o capitalismo é um sistema parasitário” (BAUMAN, 2010, p. 8), que possui uma extraordinária capacidade de encontrar novos hospedeiros, tornando-se assim, um sistema em constante transformação. Sempre que uma forma de exploração está prestes a se esgotar, novos métodos são utilizados para, novamente, explorar novas fontes, com grande auxílio do Estado. Bauman, aparentemente não vê o fim do capitalismo. Também não afirma que será duradoura a sua existência, apenas indica que, mais uma vez, o Estado será o suporte financeiro da recuperação capitalista.

Mas, como está o mundo?

Seguindo o raciocínio de Bauman, o cartão de crédito chegou para transformar a vida de todas as pessoas, o famoso “compre agora e pague depois” revolucionou o mercado de crédito. Antes o indivíduo teria de economizar para, só depois, comprar; agora, pode comprar mesmo sem ter dinheiro, pois há o chamado crédito, que ainda pode ser parcelado, aumentando com isso, a dívida pessoal e consequentemente, o lucro das instituições financeiras. Hoje se pode comprar tudo em qualquer parte do mundo sem sair de casa. Os recursos computacionais facilitaram de forma extraordinária o consumo resultando no endividamento da população. As exigências do consumismo são cada vez mais impositivas. Não basta ter um produto, deve-se trocá-lo sempre que um novo item chega às prateleiras, não importando se o antigo está funcionando ou não. O que importa é ter sempre o mais moderno.

As barreiras territoriais não são mais um problema, a internet expandiu o consumo a toda população mundial. A cultura do descartável revolucionou o modo como às pessoas se utilizam dos produtos a seu dispor. Entretanto, o ser humano precisa trabalhar incessantemente para incessantemente poder comprar mais e mais. O que no início do capitalismo era apenas uma acumulação de capital, atualmente, é uma acumulação para um consumismo imediato e sem limites. Mas Bauman denuncia que “O que ficou alegremente (e loucamente) esquecido nessa ocasião é que a natureza do sofrimento humano é determinada pelo modo de vida dos homens” (BAUMAN, 2010, p. 24). Assim, o indivíduo trabalha para consumir de forma desenfreada, se endividando cada vez mais, para consumir cada vez mais, transformando sua vida num ciclo: trabalho, consumo, satisfação no consumo e no trabalho, mas, quando não consegue comprar, se endivida ainda mais e, como consequência, perde-se em qualidade de vida.

Mesmo aqueles que sabem controlar seus gastos estão imersos em uma sociedade consumista e, com isso, sofrem diariamente a tentação das facilidades do crédito e do consumo. Este modo de vida consumista é o estilo norte-americano, instituído desde o início do século XX, que influencia e impõe ao mundo este padrão de vida.

Noam Chomsky, grande pensador contemporâneo, apresenta uma crítica mais enfática quanto aos rumos que o ser humano está seguindo, mais precisamente, quanto à forma como os Estados Unidos estão conduzindo o planeta. Para ele a humanidade está entrando em um período de destruição maciça uns contra os outros e de destruição do próprio planeta. A superpotência americana está utilizando o mundo para satisfazer as suas próprias necessidades individuais (como nação hegemônica) e, simplesmente, eliminando aqueles que entram em seu caminho, pois “os Estado Unidos se reservam o direito de agir ‘unilateralmente quando necessário’” (CHOMSKY, 2004, p. 21). Ou seja, agem quando se “sentem ameaçados”. Quando a maior potência mundial se sentirá ameaçada pelo Iraque ou pelo Afeganistão? Os EUA estão, há quase um século, impondo suas normas ao mundo de forma violenta ou pacífica, dependendo de como o outro país aja de forma contrária ou não à sua política hegemônica.

Wallerstein acredita que “a grande maioria das populações do mundo esteja – objetiva e subjetivamente – em piores condições materiais do que nos sistemas históricos anteriores” (WALLERSTEIN, 2001, p. 37). Para ele a grande desigualdade é um fator determinante para o desequilíbrio na distribuição da riqueza entre a população. Uma sociedade mais igualitária e, verdadeiramente, democrática conduzirá o mundo para a distribuição equilibrada das riquezas.

Com o fim do socialismo soviético o mundo continuou seguindo seu curso, agora convivendo com o fato de que o capitalismo permanece hegemônico e que, por enquanto, não há outro sistema que possa sobrepujá-lo. Os EUA continuam hegemônicos e controladores, e o mundo permanece sob sua tutela. Apesar disso, a sociedade mundial permanece em busca de alternativas que, pelo menos, amenizem as muitas desigualdades que o sistema capitalista impõe.

Uma longa caminhada rumo a um futuro utópico em que todos possam se beneficiar das riquezas do mundo. O futuro não faz parte da História, é apenas uma alternativa, dentre infinitas possibilidades disponíveis, que o ser humano pode traçar e transformar em História.

Fica a dica!!!

Quer saber mais? Leia:

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário e outros temas contemporâneos. Rio de Janeiro: Zahar 2010.

CHOMSKY, Noam. O império americano: hegemonia ou sobrevivência. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

FRIEDEN, Jeffry A. Capitalismo Global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MARX, Karl. O Capital. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

REIS FILHO, Daniel Aarão (org). O Século XX: o tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo Histórico e Civilização Capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

______________. Após o liberalismo: em busca da reconstrução do mundo. Petrópolis: Vozes, 2002.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1996.

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