Série: UM PANORAMA DA GLOBALIZAÇÃO E DO CAPITALISMO – Parte 7/9: O intenso século XX – 4

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

A Guerra Fria

 

A Guerra Fria foi um conflito ideológico entre duas potências que lutavam por hegemonia no cenário mundial. De um lado os Estados Unidos com o seu poderio capitalista, e do outro a União Soviética socialista. Ambas possuíam zonas de influência por todo o mundo, sendo que a área capitalista era consideravelmente a maior.

A Segunda Guerra Mundial ocorreu principalmente em território europeu, com um braço oriental localizado no Japão. Ao final da guerra a Europa e o Japão estavam devastados, incluindo a União Soviética. Entretanto, houve um único país que saiu fortalecido: os Estados Unidos.

Toda a dinâmica capitalista do pós 2ª Guerra foi direcionada pelos EUA. O acordo de Bretton Woods aprovou modificações na política econômica internacional que, na prática, aumentou ainda mais a hegemonia norte-americana. O dólar passou a ser uma moeda internacional – “livre conversão de dólares por ouro, numa época em que os EUA detinham quase 80% das reservas de ouro” (REIS, 2005, p.233) – e houve a criação de instituições internacionais cujo objetivo era auxiliar na execução dos acordos, como o Fundo Monetário Internacional – FMI e o Banco Mundial. Contaram ainda com a Doutrina Truman, que nada mais era que a ajuda dos EUA para a reconstrução européia contra uma agressão totalitária (clara indicação da bipolarização entre a área de influência que os norte-americanos queriam traçar na Europa em relação à União Soviética), e o Plano Marshall, que era a concessão de empréstimos aos europeus com o fim de adquirirem produtos americanos. Em contrapartida ao Plano Marshall, a URSS criou o Comecon – Conselho de Assistência Mútua Econômica a fim de integrar os países socialistas.

Após um pequeno período de ajustes entre as duas superpotências, observou-se uma relativa coexistência entre capitalismo e socialismo. Com os planos e acordos instituídos pelos EUA aos países europeus e o Japão, verificou-se uma crescente recuperação de suas economias. Nas décadas de 70 e 80 começou a se esboçar uma leve aproximação com a economia americana, mas ainda distante, “o peso econômico mundial passava então dos EUA para as economias européia e japonesa, as quais os EUA julgavam ter salvado e reconstruído” (HOBSBAWM, 2010, p.238). Isso causou grande preocupação para os Estados Unidos, pois a grande acumulação de dólares nos bancos europeus, e os desesperados gastos com a corrida armamentista norte-americana, causaram o temor de que os dólares guardados na Europa fossem utilizados para adquirir o ouro armazenado nos cofres norte-americanos. Para eliminar esse temor, o Governo Nixon em 1971 desvalorizou o dólar em relação ao ouro e pôs fim à sua convertibilidade sobre o ouro e as demais moedas, passando a flutuar com base no mercado. O dólar passou a ser definitivamente o padrão, não mais o ouro. Ao final da Guerra Fria, o mundo capitalista estava plenamente articulado com base em uma superpotência hegemônica, mas, apesar da existência de diversas outras potências em pleno crescimento ainda não se vislumbravam uma aproximação efetiva.

 Após 1917, com a Revolução Russa, a União Soviética se tornou um país socialista. Não aos moldes que Karl Marx idealizava, afirmando que o socialismo surgiria de um país capitalista altamente industrializado com a força do proletariado organizado e se espalharia por todo o mundo. Ao que Wallerstein, apresentando uma explicação sobre o socialismo científico de Marx, dispõe: “O conceito de que o socialismo surgiria primeiro nos países mais “avançados” sugeria um progresso mediante o qual o socialismo se desenvolveria a partir do avanço do capitalismo” (WALLERSTEIN, 2001, p. 75 e 76). O fato é que a URSS sobreviveu à mudança de modelo político-econômico ocorrida em 1917 e influenciou parte da Europa e Ásia tornando-se a segunda superpotência mundial.

Efetivamente, a URSS nunca teve a possibilidade de chegar próximo do poder político-econômico americano, no máximo, pôde se aproximar do poderio militar, portanto, a superioridade dos EUA sempre foi incontestável. O temor norte-americano era em relação a uma possível e futura hegemonia socialista. Somente após a década de 1960 é que os soviéticos foram elevados à posição de superpotência, originado do desgaste político americano relativo à Guerra do Vietnã, cuja derrota da maior potência mundial desmoralizou sobremaneira os Estados Unidos. Entretanto, a insana corrida armamentista capitaneada pelos Estados Unidos, transformou a década de 80 em palco para a derrocada da URSS, pois este não possuía nenhum país suficientemente forte ao seu lado para dar suporte a tal empreitada armamentista. Todos os países do bloco socialista eram dependentes diretos dos soviéticos, a URSS gastava milhões para sustentar o regime socialista em países que não possuíam nenhuma condição de se sustentarem com suas próprias economias. Ao contrário dos EUA, que contribuiu para o reerguimento das potências europeias e do Japão, que na década de 70 do século XX já conseguiam se auto sustentar.

A União Soviética estava esgotada, não por conta de seu confronto com o capitalismo, mas por seus próprios problemas estruturais. Em 1985 Mikhail Gorbachev lançou as políticas de reforma da URSS: Glasnost (transparência) e Perestroika (reestruturação). A primeira referia-se à liberdade de informação e a segunda ao rearranjo de toda estrutura política e econômica do Estado soviético. Tais medidas resultaram no fim da Guerra Fria e o consequente fim da URSS.

Tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos passaram todo o período da Guerra Fria em busca de hegemonia mundial. Os EUA eram uma potência de fato, a URSS era apenas uma potência de direito, mas que não podia ser ignorada por conta de seu grande poder militar. O capitalismo norte-americano subsistiu sobre o socialismo soviético, não através de um combate direto, mas pelo combate ideológico e pela capacidade de construir aliados suficientemente fortes de forma que houvesse auxílio mútuo. Talvez o socialismo não estivesse maduro o suficiente para ser implantado em 1917, e por esse motivo não foi capaz de se sobrepor ao capitalismo. E, talvez, o capitalismo ainda não esteja fraco o suficiente para ser desmantelado e substituído por outro sistema. A História não é linear e inexorável, ela simplesmente segue seu rumo com base nas atitudes dos seres humanos.

Fica a dica!!!

Quer saber mais? Leia:

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário e outros temas contemporâneos. Rio de Janeiro: Zahar 2010.

CHOMSKY, Noam. O império americano: hegemonia ou sobrevivência. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

FRIEDEN, Jeffry A. Capitalismo Global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MARX, Karl. O Capital. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

REIS FILHO, Daniel Aarão (org). O Século XX: o tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo Histórico e Civilização Capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

______________. Após o liberalismo: em busca da reconstrução do mundo. Petrópolis: Vozes, 2002.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1996.

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