Série: UM PANORAMA DA GLOBALIZAÇÃO E DO CAPITALISMO – Parte 3/9: … até o século XIX

                   
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Resultado de imagem para reforma protestantePor Denilson Alexandre Coêlho

Muitos fatos relevantes para o surgimento do capitalismo e a globalização ocorreram até o século XIX: desde a Reforma Protestante, que influenciou toda uma maneira de pensar o trabalho e sua relação entre o ser humano e Deus, até a expropriação dos camponeses das terras inglesas do século XIV ao XIX. Esses fatos são exemplos de como eventos locais podem influenciar toda a História da humanidade.

Com a Reforma Protestante no século XVI, Martinho Lutero ajudou a solidificar a base do capitalismo, mesmo que involuntariamente, pois a Reforma enfatizou a “moral e o prêmio religioso para o trabalho intramundano no quadro das profissões” (WEBER, 1996, p. 75). Isso significa que o trabalho passou a ser algo edificante aos olhos de Deus, e, consequentemente, aos olhos do povo. Esta contraposição em relação ao trabalho se dá porque, até a Idade Média, os nobres não deviam trabalhar, pois o labor era considerado indigno cabendo somente aos escravos e servos trabalharem. Com essa nova maneira de pensar, a Europa protestante globalizou o trabalho como sendo uma vocação agradável a Deus.

Entretanto é importante ressaltar que existiram várias relações entre o trabalho e o protestantismo, dentre elas a visão luterana e aResultado de imagem para reforma protestante calvinista. Para Lutero a profissão de um indivíduo é uma vocação que vem de Deus, portanto não se deve aspirar outra. “O indivíduo deve permanecer fundamentalmente na profissão e no estamento em que Deus o colocou e manter sua ambição terrena dentro dos limites dessa posição na vida que lhe foi dada.” (WEBER, 1996, p. 76 e 77). Já a doutrina calvinista aceita a possibilidade de mudança de profissão e até a incentiva, se for para ganhar mais dinheiro, pois quanto mais dinheiro se ganha, mais se agrada a Deus. Entretanto, há algo em comum entre essas duas doutrinas: o fiel deveria acumular dinheiro para melhor administrar os bens que Deus o concedeu, portanto, não deveria gastar com itens supérfluos que em nada engrandeceriam o homem e o Todo Poderoso. A doutrina calvinista foi a que melhor se adequou ao capitalismo e Weber enfatiza que “Se a Reforma é impensável sem a personalíssima evolução religiosa de Lutero e se espiritualmente ela ficou para sempre marcada por sua personalidade, sua obra decerto não teria perdurado sem o calvinismo.” (WEBER, 1996, p. 79).

Um dos fatos que simbolizam de maneira exemplar a ação que o capitalismo e, consequentemente, a globalização exerceram na população, foi a forma como as populações campesinas inglesas foram expulsas de suas terras. Este processo de alijamento das pessoas ocorreu de maneira gradual ao longo de séculos de limpeza do terreno para o florescimento do capitalismo. Desde o declínio do feudalismo, os nobres e seus arrendatários passaram a utilizar-se da terra como meio de acumular mais dinheiro. Os nobres recebiam pelo uso de suas terras um aluguel fixo e os arrendatários recebiam lucros variáveis de acordo com a produção, assim, os nobres perderam sua força e os arrendatários se transformaram em capitalistas. Os servos, neste período de evolução do século XIV ao XIX, foram sistematicamente sendo expulsos de suas terras e obrigados a vender sua força de trabalho, único bem que lhes restou.

Com o advento da Revolução Industrial Inglesa foram necessárias cada vez mais terras para criação de ovelhas e produção de lã para a manufatura, além da produção agrícola para o comércio. Com isso, as terras da Igreja e do Estado foram roubadas, a propriedade feudal foi transformada em propriedade privada e toda uma população foi jogada nas cidades para serem utilizadas como mão de obra para as indústrias.

Tanto a expulsão camponesa na Inglaterra quanto a Reforma Protestante em toda a Europa, proporcionaram um desenvolvimento substancial do capitalismo, além do encurtamento dos espaços em todo o território mundial. A expulsão dos camponeses das terras inglesas foi uma das consequências da grande Revolução Industrial que elevou a Inglaterra à maior potência mundial até o início do século XX, exportando sua língua, cultura e produtos por toda a Terra. Os efeitos da Reforma Protestante foram sentidos principalmente nos Estados Unidos onde ingleses descontentes com o “Velho Mundo” ou expulsos dele, navegaram pelo Atlântico rumo ao desconhecido e firmaram suas edificações em uma nova terra. Nesta terra fincaram as bases do protestantismo formando uma sociedade que valoriza o trabalho acima de tudo e, posteriormente, se tornando a maior potência mundial do século XX, exportando sua língua, cultura e produtos por toda a Terra. Inglaterra, potência até o século XIX, Estados Unidos, potência do século XX, ambas transmitindo seus valores locais para todo o mundo, isso é globalização.

Fica a dica!!!

Quer saber mais? Leia:

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário e outros temas contemporâneos. Rio de Janeiro: Zahar 2010.

CHOMSKY, Noam. O império americano: hegemonia ou sobrevivência. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

FRIEDEN, Jeffry A. Capitalismo Global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MARX, Karl. O Capital. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

REIS FILHO, Daniel Aarão (org). O Século XX: o tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo Histórico e Civilização Capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

______________. Após o liberalismo: em busca da reconstrução do mundo. Petrópolis: Vozes, 2002.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1996.

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