A escravidão e os pensadores do século XIX

                   
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Imagem relacionadaPor Denilson Alexandre Coêlho

O século XIX foi um período marcado pelo fim da escravidão no Brasil. Mas como pensavam os grandes intelectuais escravistas da época? Vamos fazer uma viagem até o Brasil do século XIX para conhecer um pouco mais sobre o pensamento escravocrata de então. É importante esclarecer que cada época possui o seu modo de pensar e de viver. Mesmo que fiquemos escandalizados ou indignados com as afirmações daqueles pensadores de outrora, não podemos julgá-los com os olhos do presente, mas, simplesmente, tentar compreender e não repetir certas atitudes.

De acordo com a teoria racista, Sílvio Romero (1851 a 1914) mostra uma perspectiva anti-romântica e pró-abolicionista, baseando em uma hierarquia étnica, onde o negro seria uma etnia superior ao índio e o branco mais evoluído que os dois anteriores e no caso do português, seria considerado um povo inferior, resultado do cruzamento do ibérico e latino, ou seja, os colonizadores seriam uma raça atrasada e trouxe para o Brasil os males de tal raça. O mestiço para Romero seria o “agente transformador por excelência”, formado pelo português, o negro, o índio, o meio físico e a influência estrangeira valorizando a miscigenação como fator de adaptação das raças e culturas no meio local, mas acreditando que na “luta entre raças” o branco seria vitorioso por ser uma raça, mais evoluída prevendo o total branqueamento da população brasileira em três ou quatro séculos.

Para Varnhagem (1816 a 1878), a escravidão negra tinha causa na inferioridade das culturas africanas, em que com sua vinda para a América certamente teriam uma influência benéfica. Ou seja, os brancos vindos da Europa iriam auxiliar na “evolução” dos negros.

Nina Rodrigues (1862 a 1906) realizou os primeiros estudos de etnologia afro-brasileira, foi o responsável pela criação da medicina legal no Brasil, seus estudos diziam que a loucura, a criminalidade e a degeneração poderiam ser previstas e entendidas a partir dos cruzamentos raciais, que produziam uma população fraca e doente. Proclamava que o negro brasileiro lhe inspirava, a “evidência científica” da sua inferioridade e afirmava que os não-brancos ameaçariam a civilização por serem incapazes de ingressar, como sujeito, na ordem liberal-republicana. O atraso evolutivo dos negros e a degeneração psíquica dos mestiços colocavam em perigo as classes superiores, com isso propôs critérios diferenciados de cidadania e a divisão da legislação penal em vários códigos, adaptados às condições climáticas e raciais de cada uma das regiões do país.

Euclides da Cunha (1866 a 1909) retomou, no livro “Os sertões”, o enfoque médico e etnológico de Nina Rodrigues, dando ares de ciência ao preconceito de cor. Valorizou o caráter específico da miscigenação sertaneja, expandiu a ideia de nação e valorizou o país interior frente à região litorânea do país. O racismo científico se tronou corrente no debate cultural e político brasileiro no último terço do século XIX.

Esses foram alguns exemplos de pensadores do século XIX que durante muito tempo influenciou as mentes e decisões da sociedade e dos governantes de então.

Cabe agora uma reflexão sobre o presente e o futuro. Esse pensamento ainda persiste no Brasil? Como o racismo é tratado pela sociedade e pelos governantes?

A função do historiador não é resolver os problemas da atualidade. A função do historiador é fornecer subsídios necessários para que a sociedade tome novos rumos e que jamais esqueça dos erros e acertos de outrora. Portanto, que rumos a humanidade quer seguir. O passado está disponível para ser utilizado como um lembrete para as gerações futuras do que deve ser feito e o que pode ser melhorado.

Fica a dica!!!!

Quer saber mais? Leia:

MOTA, Carlos Guilherme (org). Viagem Incompleta: a experiência brasileira (1500-2000). 2ª Ed. São Paulo: Senac, 2000.

REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Varhagen a FHC. 2ª Ed. Rio de Janeiro: FGV, 1999.

GORENDER, Jacob. A Escravidão Reabilitada. In LPH. Revista de História, vol. 3, nº 1, 1972. UFOP. pp. 245-266.

LARA, Silvia Hunold. Escravidão no Brasil: um balanço historiográfico. In LHP. Revista de História, vol. 3, nº 1, 1972. UFOP. pp. 215-244.

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