Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás – Parte 1/2

                   
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Imagem relacionadaPor Denilson Alexandre Coêlho

“Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”. Já ouviu essa música? Esse termo te leva a alguma reflexão histórica?

Para que a leitura não fique longa demais e cansativa, tendo em vista a complexidade e abrangência do tema, a análise desta música será dividida em duas partes. Agora aproveite e desfrute de uma surpreendente e interessante obra de arte da música brasileira.

Composta por Raul Seixas e Paulo Coelho, no ano de 1976, esta canção traz consigo uma reflexão muito interessante e uma polêmica extremamente acalorada. Quantas pessoas já disseram que o personagem principal é o próprio diabo, pois Raul tinha pacto com ele. Mas dizem também que Raul era ateu. Então como pode escrever uma música para algo que ele acreditava não existir? Confuso não!?

Deixando de lado todas as suspeitas, acusações, sugestões de ordem religiosa ou de cunho pessoal do autor, vamos nos ater às questões históricas da música.

Aos olhos do historiador, a composição de Raul Seixas e Paulo Coelho possui uma conotação completamente adequada e compatível com a História da Humanidade. Portanto, você irá se surpreender com tanta perspicácia e inteligência por parte destes compositores.

Vamos começar:

“Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”

Começando pelo título é importante deixar muito claro que o ser humano como existimos hoje, ou seja, nossa maior evolução se deu a partir de 40.000 anos atrás. Explicando melhor, nos tornamos homo sapiens sapiens somente a 40.000 anos atrás (o homo sapiens sapiens já é uma evolução do próprio homo sapiens). Entretanto, a 10.000 anos atrás surgiram os primeiros focos de civilização. Mas, somente a 5.000 anos é que surgiu efetivamente a primeira civilização da humanidade, a grande “Suméria”, atual Iraque. Por isso essa brilhante referência ao período de existência do personagem principal.

Diante desse primeiro contato histórico com a música, surge uma pergunta…

Quem é esse personagem tão misterioso e polêmico?

É simplesmente o próprio ser humano contando sua própria História. (Deixando bem claro que essa é uma interpretação histórica da música).

Um dia, numa rua da cidade

Eu vi um velhinho

Sentado na calçada

Com uma cuia de esmola

E uma viola na mão

O povo parou para ouvir

Ele agradeceu as moedas

E cantou essa música

Que contava uma história

Que era mais ou menos assim

Que começo insólito e tranquilo para uma música que irá percorrer 10.000 anos de História. Esse início é apenas uma introdução de uma sábia pessoa que já viu de tudo durante anos e anos e anos. Esse início também retrata o fim da História da Humanidade. Que interessante! Os autores começaram com o fim. Vamos à explicação: O personagem está no presente e contando toda sua História. Ele é um mendigo que canta e pede esmola sentado a uma calçada. Este é o retrato da humanidade e o destino que estamos construindo para as futuras gerações. Um futuro de desamparo, pobreza, miséria, mas com um fio de esperança depositada no belo cantarolar de uma canção que exalta o próprio ser humano.

Eu nasci!

Há dez mil anos atrás

E não tem nada nesse mundo

Que eu não saiba demais

O ser humano tudo sabe dentro de seu limitado conhecimento. No entanto, em termos de História, o ser humano tudo sabe, tendo em vista que ele próprio construiu sua História. Cabe aqui uma pergunta.

O que é Historia?

História é a ciência do ser humano no tempo, no espaço, no pensamento, nas ideias e em tudo o que liga o passado com o presente e o futuro. Aproveite e leia o artigo “Você sabe o que é História?”. Por isso não há nada nesse mundo que o personagem não saiba demais. O ser humano é o dono da História.

Eu vi Cristo ser crucificado

O amor nascer e ser assassinado

Eu vi as bruxas pegando fogo

Pra pagarem seus pecados

Eu vi!

Eu vi Moisés

Cruzar o Mar Vermelho

Vi Maomé

Cair na terra de joelhos

Eu vi Pedro negar Cristo

Por três vezes

Diante do espelho

Ele viu Cristo ser crucificado e Pedro o negar por três vezes no ano 789 da fundação de Roma, ou ano 33 d. C. E Jesus (ou o “amor”, como o próprio compositor diz) nasceu no ano 753 da fundação de Roma ou 1 d. C. A divisão do tempo entre antes e depois de Cristo foi fruto de um minucioso estudo realizado por um Monge chamado Dionísio, por volta de 600 d. C. e acatado pela Igreja e por todas as regiões sob influência da Igreja. Atualmente praticamente todo o mundo segue a divisão a. C. e d. C. inclusive países tipicamente islâmicos.

Moisés, grande profeta do mundo judeu, cruzou o mar vermelho por volta de 1200 anos antes do nascimento de Jesus. E Maomé, grande profeta do mundo islâmico, nasceu no século VI d. C. Dois profetas que influenciaram de maneira determinante seu povo e que transformaram a História da Humanidade. Lado a lado: Moisés, libertador do povo Hebreu e Maomé, maior profeta do povo muçulmano.

As bruxas são um caso à parte. Aqui se faz uma referência muito explícita à inquisição ocorrida na Idade Média, século XII e a Inquisição Espanhola do século XV ao XIX, em que milhares de pessoas foram condenadas pela Igreja como sendo hereges, infiéis e, por que não dizer: Bruxas. Um detalhe interessante é que a Igreja condenava e a Coroa punia. Com isso, a Igreja não sujava suas mãos com as mortes e o Estado não precisava se preocupar com os julgamentos. Uma parceria um tanto quanto contraditória e interesseira.

Eu vi as velas

Se acenderem para o Papa

Vi Babilônia

Ser riscada no mapa

Vi Conde Drácula

Sugando sangue novo

E se escondendo atrás da capa

Eu vi!

Eu vi a arca de Noé

Cruzar os mares

Vi Salomão cantar

Seus salmos pelos ares

Eu vi Zumbi fugir

Com os negros prá floresta

Pro Quilombo dos Palmares

Poucos sabem que a temida Babilônia foi uma pequena cidade-Estado da Suméria e que muito tempo depois surgiu como um grande império que dominou boa parte do Oriente próximo. O Império babilônico foi citado diversas vezes na Bíblia, mas sempre como sendo um lugar de opressão, pois o Nabucodonosor, o maior de todos os imperadores babilônios tornou o povo Hebreu cativo na própria Babilônia. O período mais significativo deste império foi entre 626 e 539 a. C. quando foi riscado do mapa por Ciro, o Grande, o Primeiro Imperador da Pérsia. Só para se ter uma noção, a Babilônia é o atual Iraque e a Pérsia é o atual Irã. Já faz bastante tempo que esse povo luta!!

O famoso Conde Drácula foi um personagem criado por um escritor inglês chamado Bram Stoker. A inspiração do escritor foi o terrível Vlad III Dracul, conde e príncipe da pequena cidade de Areful, na Romênia. Vlad viveu no século 15 d. C. e foi um guerreiro implacável que defendeu suas terras contra o Império Otomano com muita garra e violência. Seus feitos se tornaram conhecidos graças a Bram Stoker que transformou o Conde no maior vampiro de todos os tempos.

Noé foi o corajoso homem que decidiu ouvir a Deus e construir uma arca para salvar a humanidade de sua própria iniquidade. Noé foi o líder de um povo que vagava pelo oriente. Encontrou refúgio na Suméria, que posteriormente se tornaria a primeira civilização da humanidade. Provavelmente, a 5600 anos atrás, ocorreu uma grande inundação na região do Golfo Pérsico e entre os rios Tigre e Eufrates, local onde Noé habitava. Essa inundação foi vivida por um povo que, posteriormente, se tornou o grande povo Hebreu, e suas Histórias foram retratadas e repetidas no que hoje chamamos de Bíblia. O dilúvio realmente ocorreu e inundou todo o mundo conhecido por aquele povo que o retratou. Por tanto, não foi uma maneira de interpretar o ocorrido, foi realmente o ocorrido contado à maneira de seus protagonistas.

Salomão foi o terceiro Rei de Israel. Assim que o jovem Salomão assumiu seu reinado, Deus perguntou o que ele desejava. Salomão, jovem e inexperiente, pediu a Deus sabedoria. Surpreendente pedido!!! Com isso, Salomão se tornou o homem mais sábio de todos os tempos. Todos os povos viajavam para pedir conselhos ao sábio rei de Israel. Isso ocorreu mais ou menos no século IX a. C.

Chegando ao Brasil, passamos a conhecer um dos maiores heróis brasileiros. O poderoso Zumbi dos Palmares. Zumbi liderou o maior quilombo construído no Brasil. Isso se deu no século XVI. Quilombo era um refúgio criado para abrigar os escravos fugidos das fazendas escravagistas. O quilombo de Palmares existiu por quase 80 anos e em seu auge, abrigou cerca de 50 mil pessoas. Seu declínio ocorreu após o assassinato de seu maior líder, Zumbi, no dia 20 de novembro de 1695. Hoje o dia 20 de novembro é o dia da Consciência Negra, em substituição ao dia 13 de maio de 1888 (abolição da escravatura).

Continua…

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