Sincretismo Religioso

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

Violentamente e covardemente milhões de negros foram retirados de sua terra natal na África e escravizados no Brasil.

Essa é uma realidade que todos conhecem. Entretanto, essas pessoas vindas de tão longe trouxeram sua cultura, seus costumes e sua religião, mesmo após toda a lavagem cerebral imposta durante o percurso até o destino final em terras americanas.

A religião dominante no Brasil Colônia/ Império era a Católica Apostólica Romana. Tal religião foi herdada dos colonizadores portugueses, também predominantemente católicos.

Já o Candomblé e a Umbanda são exemplos de religiões de matriz africana. Essas religiões foram uma evolução/ transformação de religiões praticadas no continente africano.

A Igreja Católica tem uma tradição milenar de venerar seus santos (pessoas que viveram o evangelho pregado por Jesus). Já as religiões afro brasileiras, cultuam seus orixás (entidades divinizadas que correspondem a forças da natureza ou aspectos/ virtudes humanas).

Uma característica muito utilizada pela Igreja Católica é a aculturação. Ou seja, a implementação continuada, permanente, massiva e insistente de seus costumes frente aos costumes alheios. Mas, de forma cautelosa, previdente e precavida. Com isso, a religião Católica consegue incorporar elementos de outras culturas e abranger novos seguidores. É claro que muitas vezes a religião foi imposta de forma violenta e cruel.

Quando os africanos chegaram ao Brasil, logo foram apresentados a essa nova religião (Católica). Entretanto, de forma muita inteligente e perspicaz, os negros incorporaram à sua crença, os elementos da Religião do opressor e mantiveram o culto a seus ancestrais e orixás, mesmo frequentando as Igrejas e capelas católicas. Um exemplo disso é a correspondência entre os santos católicos e as entidades e orixás umbandistas e do Candomblé.

Sendo assim, o sincretismo religioso foi inevitável e fundamental para a sobrevivência das religiões de matriz africana. Graças ao empenho, insistência e inteligência dos negros escravizados é que hoje o Brasil possui mais de 588.797 pessoas (0,29% da população brasileira) que vivem religiões de matriz africana, segundo o CENSO de 2010, do IBGE.

Esse é o verdadeiro sincretismo religioso, a mistura e incorporação de elementos de várias religiões formando uma terceira crença diferente das anteriores. É o caso das religiões de matriz africana. Originalmente havia uma religião na África, ao aportar no Brasil, seus adeptos, por necessidade, transformaram essa religião incorporando elementos de uma outra religião (Católica), formando uma nova religião.

No ENEM de 2016, a questão número 26, da prova azul, do caderno 1, apresenta uma imagem de São Benedito e um texto referente ao esforço de integrantes da Igreja Católica em cristianizar as pessoas escravizadas vindas da África. Na verdade o que ocorreu foi o famoso sincretismo religioso. Ou seja, a letra “B” da questão 26 é a correta.

Veja abaixo, a questão na íntegra.

QUESTÃO 26 Prova Azul, Caderno 1, ano 2016

 

TEXTO I

Imagem de São Benedito. Disponível em: http://acervo.bndigital.bn.br. Acesso em: 6 jan. 2016 (adaptado).

TEXTO II

Os santos tornaram-se grandes aliados da Igreja para atrair novos devotos, pois eram obedientes a Deus e ao poder clerical. Contando e estimulando o conhecimento sobre a vida dos santos, a Igreja transmitia aos fiéis os ensinamentos que julgava corretos e que deviam ser imitados por escravos que, em geral, traziam outras crenças de suas terras de origem, muito diferentes das que preconizava a fé católica.

OLIVEIRA, A. J. Negra devoção. Revista de História da Biblioteca Nacional, n. 20, maio 2007 (adaptado).

Posteriormente ressignificados no interior de certas irmandades e no contato com outra matriz religiosa, o ícone e a prática mencionada no texto estiveram desde o século XVII relacionados a um esforço da Igreja Católica para

A reduzir o poder das confrarias.

B cristianizar a população afro-brasileira.

C espoliar recursos materiais dos cativos.

D recrutar libertos para seu corpo eclesiástico.

E atender a demanda popular por padroeiros locais.

Quer saber mais? Leia:

ABREU, João Capistrano de. Capítulos de história colonial. 7ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos Viventes – formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997.

CALÓGERAS, João Pandiá. Formação histórica do Brasil. 7ª edição. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 1972.

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas. O imaginário da República no Brasil. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2000.

________________________. Cidadania no Brasil: O longo caminho. 14 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

________________________. Nação e cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2007.

COSTA, Emília Viottida. Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo, SP: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda, 1979.

DELGADO, Lucília de Almeida N. O Brasil Republicano. Rio de Janeiro, RJ: Editora Civilização Brasileira, 2008.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. 37ª edição. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1999.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org), História geral da civilização brasileira – tomo I: a época colonial. São Paulo, SP: DIFEL, 1985, 2v.

____________________________. Raízes do Brasil. 26ª edição. Rio de Janeiro, RJ: José Olímpio, 1994.

SALVADOR, Frei Vicente do. História da Brasil (1500 – 1627). 7ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982.

2 COMENTÁRIOS

    • Realmente a Igreja Católica Abomina o sincretismo religioso. No entanto, para as religiões de matriz africana, o sincretismo foi primordial para a sua sobrevivência e evolução.

      Ótimo comentário.

      Muito obrigado.

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