Bat Macumba

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

“Bat Macumba”?

Que nome estranho para uma música!

Que música estranha para um artigo de História!

Que estrutura estranha para uma letra!

Que letra estranha para uma composição!

Veja, leia e se surpreenda com esta incrível obra de arte vestida de música.

 

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba

Bat Macumba ê ê, Bat Macum

Bat Macumba ê ê, Batman

Bat Macumba ê ê, Bat

Bat Macumba ê ê, Ba

Bat Macumba ê ê

Bat Macumba ê

Bat Macumba

Bat Macum

Batman

Bat

Ba

Bat

Bat Ma

Bat Macum

Bat Macumba

Bat Macumba ê

Bat Macumba ê ê

Bat Macumba ê ê, Ba

Bat Macumba ê ê, Bat

Bat Macumba ê ê, Batman

Bat Macumba ê ê, Bat Macum

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá!

 

“Bat macumba” foi escrita de forma a trazer elementos do concretismo (movimento artístico surgido na Europa no ano de 1917 e que chegou ao Brasil na década de 1950). As principais características do concretismo eram o fim do verso, utilização de todo o espaço do papel e união entre o visual e o som.  O Tropicalismo também se utilizou de recursos concretistas, e os Mutantes, com o “Bat macumba” foram ao auge desta técnica. Esta música possui em sua estrutura apenas uma frase que se repete durante todo o percurso sonoro, se decompondo e recompondo, como se fosse um mantra, não como em religiões de matriz africana, mas para ligar o mantra religioso com o ritmo alucinante do rock.

O título já apresenta duas palavras aparentemente destoantes “Bat macumba”. Bat: (do inglês: morcego), traz em sua sonoridade a palavra bate, do verbo bater; e macumba: palavra que se liga à religião afro-brasileira. No meio da canção surge a palavra Batman: super-herói norte-americano branco. Com isso, “Bat macumba” expressa a ligação entre brancos e negros e entre a música nacional e internacional. As ligações não param por aí; a expressão ê ê, origina-se do iê-iê-iê (termo que se tornou símbolo do rock brasileiro no ritmo da jovem guarda); obá significa tanto uma entidade das religiões afro-brasileiras como uma saudação espontânea tipicamente brasileira. Bá, significa ama de leite (escrava negra que amamentava os filhos de seus senhores). Baobá, árvore de origem africana. Batman e Bat (personagem norte-americano) são palavras que simbolizam o rock internacional.

“Bat macumba” desenvolve uma linguagem que une em uma única frase, elementos afro-brasileiros, como o batuque expressado na palavra “bat” (de bater) e na palavra “macumba” (também conhecido como um instrumento de percussão utilizado em religiões de matriz africana); além das expressões bá e baobá e fechando com a sonoridade como de um mantra. Tudo isso liga-se ao samba que também tem origem africana e que também se utiliza dos batuques dos terreiros de macumba. O ê ê mantém esse percurso pela música brasileira, pois encontra-se com a jovem guarda, movimento muito expressivo nos anos de 1960 e 1970, além da influência do rock americano e inglês e da “pop-art”. Por fim, desembarca no próprio movimento tropicalista, do qual o grupo “Os Mutantes” fez parte.

Uma frase que explica quase cem anos de música brasileira. Essa é a grande inovação d’Os Mutantes. Desde o samba de origem africana, até o rock de origem norte-americana e européia. Todo o mundo ocidental com suas expressões artísticas e sonoras representadas em uma única frase. Esse é o legado deixado pelo tropicalismo e pelos Mutantes: a universalização e a hibridação de ritmos e movimentos artísticos.

Aproveito para trazer aos leitores do Dicas, uma excelente dica de leitura. “Qualquer Bobagem: Uma História dos Mutantes.” do Historiador Eduardo Kolody BAY. É uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília. Geralmente não temos o hábito de ler teses, dissertações ou monografias, mas esta dissertação foi escrita de forma muito interessante, inteligente e de fácil leitura.

Fica a dica!!!!!

Quer saber mais? Leia:

COÊLHO, Denilson Alexandre. A História do Brasil em 20 minutos. eBook. Dicas de História, 2017.

BAY, Eduardo Kolody. Sobre atabaques, máquinas de costura distorcidas e macumbeiros picarescos. In: BRITO, Eleonora Zicari C., PACHECO, Andrade e ROSA, Rafael. Sinfonia em Prosa – diálogos da história com a música”. São Paulo, SP: Intermeios, 2013.

BAY, Eduardo Kolody. Qualquer Bobagem: Uma História dos Mutantes. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Universidade de Brasília. 2009. Disponível em < http://repositorio.unb.br/handle/10482/4901>.

FAVARETTO, Celso. Tropicália: política e cultura. IN: DUARTE, Paulo Sérgio & NAVES, Santuza Cambraia. (orgs.). Do Samba-Canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2003.

OLIVEIRA, Ana de. Tropicália: movimento. Tropicália. Disponível em < http://tropicalia.com.br/identifisignificados/movimento>.

RIDENTI, Marcelo. Revolução brasileira na canção popular. IN: DUARTE, Paulo Sérgio & NAVES, Santuza Cambraia. (orgs.). Do Samba-Canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2003.

TAITI, Luiz. A sonoridade brasileira. IN: MADEIRA, Angélica & VELOSO, Mariza. Descobertas do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

VILATINHO, Sabrina. Concretismo. Brasil Escola. Disponível em < http://brasilescola.uol.com.br/literatura/concretismo.htm>.

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