TROPICALISMO

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

         O tropicalismo foi um movimento cultural que surgiu no final da década de 1960, período de intenso desgaste político e social provocado pela Ditadura Militar no Brasil. Tinha como proposta a crítica ao capitalismo, aos movimentos políticos brasileiros de esquerda e direita, e à própria cultura vivida no país. Seus participantes foram músicos e artistas que se identificaram com o ideal preconizado pelo movimento, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Apesar da pouca duração, seus reflexos são sentidos ainda hoje na música e na arte nacionais.

         O movimento tropicalista despontou no cenário nacional no ano de 1967 com composições de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O período efervescente dos festivais de música da TV Record possibilitou que canções como “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria” eternizasse nos ouvidos e na boca de várias gerações de brasileiros e brasileiras.  Entretanto, o estilo e a estrutura musical, a forma como criticava o status quo político e ideológico do Brasil e até a forma de se vestir, fizeram com que seus principais representantes fossem presos  e, posteriormente, exilados. Com isso, em 1968, iniciou-se o fim deste movimento, não sem antes marcar de forma indelével a cultura e a música brasileira.

         A crítica ao mundo capitalista e a situação política e social do país eram uma das temáticas principais do movimento tropicalista. O capitalismo, com sua cultura de massa, influenciava de maneira contundente os valores e ideologias de todo o planeta. A música tropicalista, com sua proposta de contracultura, lutava contra os horrores de uma política econômica que beneficiava poucos, em detrimento de milhares e milhões de necessitados. O anticapitalismo estava expresso em diversas canções tropicalistas como “É proibido proibir”, de Caetano Veloso.  Já as críticas ao momento político nacional não se mostravam abertas e declaradamente expressas nas letras das músicas, mas, principalmente, eram construídas de forma a fazer com que os destinatários destas canções se esforçassem em percebê-las. Os tropicalistas compunham suas obras com o objetivo de transformar a forma como se ouve música, não por medo da repressão, mas por princípios ideológicos.

         A estrutura utilizada para se formar a música tropicalista tinha como base a mistura de ritmos e estilos. Buscou-se romper as barreiras de uma música focada apenas na letra e na sonoridade, para chegar à plenitude de uma musicalidade que envolve diversas manifestações culturais e artísticas. Um bom exemplo dessa mescla entre música e arte é a canção “Bat macumba” da banda “Os Mutantes”.

         Os tropicalistas tiveram inúmeras influências e combinaram uma diversidade de estilos musicais. Dentre eles, destaca-se o rock nacional e internacional como a banda “Os Beatles” e os músicos da Jovem Guarda, o rock psicodélico, toques de samba, bossa nova, músicas folclóricas, regionais e tudo o que a cultura poderia oferecer.

         Este movimento cultural teve diversos participantes. Dentre eles destaca-se Caetano Veloso e Gilberto Gil. Além deles, Tom Zé, José Carlos Capinan Torquato Neto, Rogério Duarte e a banda os Mutantes complementam essa galeria de artistas que revolucionaram a música brasileira com essa nova forma de pensar a cultura e o próprio Brasil, não esgotando a lista de artistas influenciados pelo movimento.

         As músicas tropicalistas abalaram as estruturas convencionais da musicalidade brasileira. A produção musical foi intensa nos anos de 1967 e 1968, mas sua influência perdurou por muitos anos. Em 1967 surgiram os primeiros discos influenciados pelo tropicalismo: “Domingo”, de Gal Costa e Caetano Veloso e “Louvação” de Gilberto Gil. Em 1968 a produção intelectual explodiu com os discos “Tropicália ou Panis Et Circencis”, álbum lançado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os mutantes e Tom Zé, com acompanhamento de Capinan e Torquato Neto; “Gilberto Gil”, disco com o nome de seu autor; “Tom Zé”, também com o mesmo nome de seu autor; “A banda tropicalista do Duprat”, de Rogério Duprat. A partir de 1969 diversas outras produções foram lançadas sob inspiração tropicalista, tais como: “Barra 69” de Caetano Veloso, “Expresso 2222” de Gilberto Gil em 1972, até chegar em “Tropicália 2” de Caetano e Gil em 1993, mas que não teve tanta repercussão quanto nos primeiros trabalhos. Foi grande a produção musical, não se esgotando todos os álbuns criados sob inspiração tropicalista.

         Os frutos colhidos com o movimento tropicalista são incontáveis e vistos ainda hoje na música brasileira: a mistura de ritmos, a incorporação de instrumentos e músicas nacionais e estrangeiras, e a atitude irreverente nos palcos. Tudo foi fruto de uma intensa e inteligente forma de pensar a música em sua estrutura sonora, instrumental, gestual, visual e em seu conteúdo. O tropicalismo libertou o artista das amarras de uma base rígida de se fazer música.

Fica a dica!!!!!

Quer saber mais? Leia:

COÊLHO, Denilson Alexandre. A História do Brasil em 20 minutos. eBook. Dicas de História, 2017.

BAY, Eduardo Kolody. Sobre atabaques, máquinas de costura distorcidas e macumbeiros picarescos. In: BRITO, Eleonora Zicari C., PACHECO, Andrade e ROSA, Rafael. Sinfonia em Prosa – diálogos da história com a música”. São Paulo, SP: Intermeios, 2013.

BAY, Eduardo Kolody. Qualquer Bobagem: Uma História dos Mutantes. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Universidade de Brasília. 2009. Disponível em < http://repositorio.unb.br/handle/10482/4901>.

FAVARETTO, Celso. Tropicália: política e cultura. IN: DUARTE, Paulo Sérgio & NAVES, Santuza Cambraia. (orgs.). Do Samba-Canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2003.

OLIVEIRA, Ana de. Tropicália: movimento. Tropicália. Disponível em < http://tropicalia.com.br/identifisignificados/movimento>.

RIDENTI, Marcelo. Revolução brasileira na canção popular. IN: DUARTE, Paulo Sérgio & NAVES, Santuza Cambraia. (orgs.). Do Samba-Canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ, 2003.

TAITI, Luiz. A sonoridade brasileira. IN: MADEIRA, Angélica & VELOSO, Mariza. Descobertas do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

VILATINHO, Sabrina. Concretismo. Brasil Escola. Disponível em < http://brasilescola.uol.com.br/literatura/concretismo.htm>.

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