Olhos Coloridos

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

“Olhos Coloridos “. Já ouviu essa música? Esse termo te leva a alguma reflexão histórica?

Composta por Macau, na década de 1970. Esta canção somente ficou conhecida no ano de 1982, na voz da grande cantora Sandra de Sá. O lançamento da música foi no conhecido e famoso programa de televisão, da rede Globo, chamado: “Os Trapalhões”. Este hit é um dos ícones da música brasileira, pois retrata com muita emoção um tema extremamente delicado e absurdo: o racismo.

Como surgiu a música?

Em 1972, Macau, já desiludido com os reveses que a carreira de músico trouxera para sua vida, foi convidado por um amigo para visitar uma exposição de artes. Ao chegar na exposição, foi surpreendido por policiais que o trataram de forma racista e preconceituosa, confundindo-o com um ladrão, por conta de sua vestimenta, sua cor e seu penteado. Os policiais o levaram para o camburão e o deixaram preso em uma cela superlotada por várias horas.

Uma pessoa inocente, que precisava espairecer a cabeça por conta de problemas diversos, de repente é confundido com um bandido só porque é negro. Esse é momento em que muitos simplesmente se revoltam e efetivamente buscam uma vida à margem da sociedade, porque a sociedade não deu a oportunidade que ele precisava. Entretanto, Macau tomou outra atitude. Após os amigos o libertarem da prisão, ele resolveu refletir e afogar todas as suas mágoas e revoltas à beira do oceano, na praia do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro. Foi então que surgiu a inspiração para a criação de tão bela música que é reflexo de toda a indignação, revolta, descontentamento, orgulho, força de vontade, luta por igualdade e, principalmente, amor pelo que é, pela sua cor, seu cabelo, sua cultura e seus ideais.

Que reflexão histórica podemos tirar desta música?

É possível refletir sobre vários momentos históricos.

Podemos começar pela década de 1970, em pleno Regime Militar em que os diretos de todos os cidadãos foram restringidos. Neste período, não só os negros, mas toda a sociedade vivia um clima de grande tensão política e econômica.

Quanto à questão histórica que envolve o negro, o caminho é mais longo. O negro no Brasil possui uma História de muito sofrimento, trabalho, luta e morte. Mas, também uma História de muita resistência, cultura, tradição e religiosidade.

Assim como a letra da música afirma “A verdade é que você (Todo brasileiro tem!) Tem sangue crioulo”. O Brasil é negro!!! Foram três séculos de tráfico de escravizados da África para o Brasil (entre os séculos XVI e XIX). Mais de Quatro milhões de pessoas foram traficadas, número consideravelmente expressivo, sem contar aqueles que já nasceram após a escravização. Para se ter uma ideia da quantidade, a população brasileira no início do século XX era de 17,4 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Portanto, dificilmente haverá um brasileiro que não tenha sangue crioulo.

É com muito orgulho que devemos afirmar que o brasileiro tem sangue crioulo, europeu, indígena, asiático e de todos os locais do globo terrestre. Mas, com toda a certeza, o mais marcante e predominante é esse sangue crioulo, esse cabelo duro, essa pele negra, esses olhos coloridos.

Agora é possível perceber o peso histórico que essa obra prima nos apresenta. Ao ouvir uma música, tente perceber as marcas de historicidade que ela apresenta. Vocês irão reparar que em tudo há um pedaço de História.

Fica a dica!!!!!

Quer saber mais? Leia:

COÊLHO, Denilson Alexandre. A História do Brasil em 20 minutos. eBook. Dicas de História, 2017.

COÊLHO, Denilson Alexandre. O Brasil é negro. eBook. Dicas de História, 2017.

 

FERREIRA, Roquinaldo. “Ilhas Crioulas”: O significado Plural da mestiçagem cultural na África Atlântica. Revista de História da USP. São Paulo, n. 155, jul./dez. 2006. Disponível em:

<http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/155/RH_155_-_Roquinaldo_Ferreira.pdf>. Acesso em: 14 out. 2015.

FIGUEIREDO, Luciano. Raízes Africanas. Rio de Janeiro: Sabin, 2009.

FUNARI, Pedro Paulo A. e CARVALHO, Aline Vieira de. O patrimônio em uma perspectiva crítica: o caso do Quilombo dos Palmares. Diálogos. Maringá, v. 9, n. 1, p. 33-47, 2005. Disponível em:

<http://www.dialogos.uem.br/index.php?journal=ojs&page=article&op=viewArticle&path[]=175>. Acesso em 28 set. 2015.

GARCIA, Renísia Cristina. Identidade Fragmentada: um estudo sobre a história do negro na educação brasileira (1993 – 2005). Brasília: INEP, 2007.

CALÓGERAS, João Pandiá. Formação histórica do Brasil. 7ª edição. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 1972.

KLEIN, Herbert S. e VINSON III, Ben. A Escravidão Africana na América Latina e Caribe. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 2015.

LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.

MELO, Elisabete e BRAGA, Luciano. História da África e Afro-Brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.

G1:

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/11/autor-de-olhos-coloridos-conta-que-musica-surgiu-de-caso-de-racismo.html

ESTADÃO:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,autor-do-hit-olhos-coloridos-estreia-apos-42-anos-de-carreira,905519

RÁDIO EDUCATIVA  DE PIRACICABA:

http://educativafm.com.br/novo/autor-de-olhos-coloridos-conta-que-musica-surgiu-de-caso-de-racismo/

IBGE

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/29092003estatisticasecxxhtml.shtm

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