Índios

                   
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Por Denilson Alexandre Coêlho

“Índios”. Já ouviu essa música? Esse termo te leva a alguma reflexão histórica?

Composta por Renato Russo, Líder da Inesquecível Banda “Legião Urbana”, no ano de 1986, no álbum “Dois”. Este foi um daqueles álbuns que marcaram a História da Música Brasileira. Foi o segundo disco da Banda e a crítica não poupou elogios. Ainda hoje é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos.

Sucessos como “Daniel na cova dos leões”, Quase sem Querer”, “Eduardo e Mônica”, Tempo Perdido”, “Química”, “Índios”, dentre outros, compõem esse incrível disco que explodiu nas paradas de sucesso das rádios de todo o país.

Falando especificamente sobre a música “Índios”, logo pelo título já se percebe que a História será apresentada de maneira crítica, como era o costume da Banda.

Analisemos a letra:

Nas duas primeiras estrofes, Renato Russo já fala das artimanhas e do poder de convencimento dos Europeus frente às populações nativas da América.

Quem me dera ao menos uma vez

Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem

Conseguiu me convencer que era prova de amizade

Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

 

Na primeira estrofe, de forma magistral, o autor lembra de todo o outro retirado dos povos astecas, maias e incas. A região que hoje se encontra a América espanhola era extremamente rica em ouro e metais preciosos. Os europeus se aproveitaram da religiosidade e de todo o arsenal, seja militar, seja logístico, para convencer os nativos de que vinham em “paz”. Eram duas realidades completamente diferentes. Entretanto, os povos ameríndios também se sentiram atraídos e interessados pelas “bugigangas” trazidas pelos estranhos visitantes.

 

Quem me dera ao menos uma vez

Esquecer que acreditei que era por brincadeira

Que se cortava sempre um pano de chão

De linho nobre e pura seda

 

Na segunda estrofe, observa-se a peculiar percepção por parte do autor. Antigamente, se contava que as caravelas de Pedro Álvares Cabral estavam a caminho das Índias, mas que por ironia do destino, ventos sopraram de forma que se perderam e chegaram no Brasil. Rsrs. Até parece piada, mas por muito tempo essa era a História oficial.

A Índia, a China e a Pérsia eram famosos por seus tecidos. Com isso, pode-se ligar o linho nobre e pura seda com a chegada das naus de Cabral e suas diversas especiarias trazidas das índias. Além disso, é possível reparar em um detalhe muito interessante: linho nobre e pura seda não são usados como pano de chão. Foi uma forma brilhante de o autor denunciar as mentiras que os portugueses contaram aos índios.

Os indígenas foram forçados, massacrados, convencidos, intimados a acreditarem que os utensílios trazidos pelos conquistadores eram apenas simples presentes ou objetos de troca. O escambo (troca direta de objetos sem qualquer outro meio intermediário) foi umas das formas mais eficazes de escravização e destruição dos povos indígenas, atrás apenas das doenças transmitidas pelos europeus e da violência militar para domínio e conquista do novo território.

 

Quem me dera ao menos uma vez

Explicar o que ninguém consegue entender

Que o que aconteceu ainda está por vir

E o futuro não é mais como era antigamente

 

Em uma visão histórico-filosófica este trecho admite que a invasão europeia pôs fim ao futuro do indígena. A destruição implementada nas Américas do século XVI transformou definitivamente a realidade do continente. O caminho natural de todas as comunidades ameríndias se rompeu drasticamente de uma vez por todas. A destruição ocorrida no século XVI e séculos vindouros se reflete ainda hoje com a quase extinção de todas as populações indígenas.

Quem me dera ao menos uma vez

Provar que quem tem mais do que precisa ter

Quase sempre se convence que não tem o bastante

Fala demais por não ter nada a dizer

 

Neste ponto da canção é possível reparar na ganância do período mercantilista europeu. As grandes navegações permitiram uma circulação exponencial de mercadorias por todo o planeta. A busca de novas fontes de recursos e de novos mercados impulsionaram o início do capitalismo e desembocaram no consumismo desenfreado que atualmente o mundo vive.

Uma sociedade que preza pelo consumismo perde a capacidade de se comunicar e, consequentemente, fala em demasia por não ter o que falar.

Quem me dera ao menos uma vez

Que o mais simples fosse visto como o mais importante

Mas nos deram espelhos

E vimos um mundo doente

 

Com a invasão dos povos europeus nas Américas, alterou-se a maneira de ver e viver o mundo. Muitos ameríndios foram mortos por doenças trazidas pelos europeus, muitos índios morreram com uma simples gripe, pois nunca haviam entrado em contato com certos vírus. Mas, não é apenas esse tipo de doença que Renato Russo quis expressar. O principal ponto desta estrofe é a doença da alma, do espírito, da ganância, do interesse por objetos desnecessários. O índios foram contaminados pelo vírus do egoísmo e do individualismo. As coisas não são mais da comunidade, mas apenas do indivíduo. O modo simples de viver dos nativos foi substituído pela complexa estrutura do consumismo desnecessário e do absurdo acúmulo do que não necessitamos.

Quem me dera ao menos uma vez

Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três

E esse mesmo Deus foi morto por vocês

Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste

 

Essa estrofe talvez seja a mais polêmica, crítica e verdadeira de todas. A crítica que o autor faz é, principalmente, à religião Católica imposta de maneira, muitas vezes forçosa e violenta. Os europeus chegaram, impuseram sua religião e seus costumes e, simplesmente aniquilaram todas as formas de cultura que puderam. Entretanto, com grande sacrifício, ainda hoje há centelhas de religiosidade e cultura indígena. Bravamente algumas tribos mantiveram parte de sua estrutura social e cultural.

Difícil explicar para um povo que vive, cultua e adora a natureza, dizer que um ser pode ser ao mesmo tempo três e um. Como explicar isso para quem vive do simples, para quem só tem a preocupação de contemplar e proteger a mãe natureza. Então, eis que surge um povo estranho, fedido, doente, com olhares espantados com tanta beleza, nudez, limpeza e simplicidade. Esse povo estranho vem com uma história que seu Deus é melhor que esses deuses advindos das matas e florestas.

Mas, a crítica mais pesada, inteligente, perspicaz e, acima de tudo, sábia feita pelo autor foi afirmar categoricamente que esse Deus que eles tanto falam foi assassinado por eles mesmos e que suas maldades deixam esse mesmo Deus tão triste. Ou seja, os portugueses pregavam um Deus perfeito e maravilhoso, mas na realidade, eles praticavam exatamente o contrário que esse Deus pedia. Que contradição!!! Pregar a liberdade e escravizar pessoas. Pregar a igualdade e extorquir os outros. Pregar a paz e praticar a violência. Pregar o amor e violentar as indígenas.

A religião imposta aos nativos americanos não segue os princípios da religião Católica Apostólica Romana, mas sim a religião do mercantilismo, capitalismo, do acúmulo de riquezas e da imposição do poder. Os portugueses se utilizaram de uma fachada religiosa cristã católica para conquistar e colonizar o Brasil.

Há um artigo muito interessante e intrigante intitulado “Magia, Ética e Desigualdade no Brasil”, escrito por Eurico A. Gonzales Cursino dos Santos, Professor Adjunto de Sociologia da Religião da Universidade de Brasília, que afirma que a religião católica imposta no Brasil foi uma religião de “fachada”. Foram esvaziados os conteúdos éticos e universais da religião católica pregada no Brasil para introduzir princípios que interessavam unicamente a Coroa portuguesa, nada tendo a ver com a religiosidade católica.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda

Assim pude trazer você de volta pra mim

Quando descobri que é sempre só você

Que me entende do início ao fim

 

E é só você que tem a

Cura pro meu vício de insistir

Nessa saudade que eu sinto

De tudo que eu ainda não vi

 

Essas duas estrofes, como que um refrão, apresentam um desabafo quanto à tristeza do próprio autor em relação a tudo o que o país perdeu após a invasão europeia nas américas.

Quem me dera ao menos uma vez

Acreditar por um instante em tudo que existe

E acreditar que o mundo é perfeito

E que todas as pessoas são felizes

 

Aqui faz-se uma crítica às consequências de um mundo voltado às satisfações superficiais, momentâneas, imediatistas e vazias de sentido. Na realidade, o mundo não é perfeito e a felicidade contínua e constante é uma quimera, assim como aquele personagem mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente.

Quem me dera ao menos uma vez

Fazer com que o mundo saiba que seu nome

Está em tudo e mesmo assim

Ninguém lhe diz ao menos obrigado

 

Interessante perceber que inúmeras cidades, alimentos, palavras, costumes são de origem indígena e mesmo assim nós não damos o devido valor ou sequer agradecemos por tudo o que os nativos nos proporcionaram.

Alguns exemplos de cidades com nomes indígenas são: Aracaju (SE), Araçatuba (SP), Araguari (MG), Arapiraca (AL), Gravatá (PE), Gravataí (RS), Guará (DF), Guajará-Mirim (RO), Guarulhos (SP), Iguatemi (MS), Ipameri (GO), Ipiranga (PR), Itabuna (BA), Itajaí (SC), Jacarepaguá (RJ), Jaciara (MT), Piracanjuba (GO), dentre tantas outras.

Comidas: Tapioca, Moqueca, tacacá, tucupi, pratos preparados com peixe, raízes como a batata doce, inhame e palmito, amendoim, milho e etc. Assim como muitas outras palavras e expressões que utilizamos no nosso dia a dia.

Quem me dera ao menos uma vez

Como a mais bela tribo

Dos mais belos índios

Não ser atacado por ser inocente

 

Neste ponto, o autor faz uma denúncia histórica relativa à invasão e destruição de toda a população indígena, simplesmente por estar no caminho dos europeus.

 

Tentei chorar e não consegui

 

Final trágico para as populações nativas das américas. O rastro de destruição foi tão avassalador que não conseguiram nem chorar por seus mortos. Segundo o IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população indígena  em 2010 era de 896,9 mil. Em 1500 eram cerca de 3 milhões de habitantes somente no Brasil, segundo o site da FUNAI Fundação Nacional do Índio.

Agora é possível perceber o peso histórico que essa obra prima nos apresenta. Ao ouvir uma música, tente perceber as marcas de historicidade que ela apresenta. Vocês irão reparar que em tudo há um pedaço de História.

Fica a dica!!!!!

Quer saber mais? Leia:

COÊLHO, Denilson Alexandre. A História do Brasil em 20 minutos.eBook. Dicas de História, 2017.

CALÓGERAS, João Pandiá. Formação histórica do Brasil. 7ª edição. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 1972.

Portal Brasil:

http://www.brasil.gov.br/governo/2015/04/populacao-indigena-no-brasil-e-de-896-9-mil

FUNAI:

http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/quem-sao

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