Como nossos pais – Belchior

                   
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1884

“Como nossos pais”. Já ouviu essa música? Esse termo te leva a alguma reflexão histórica?

Foi composta em 1976 por Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior, em plena ditadura militar. Incrível letra que retrata a Ditadura com os olhos de quem viveu essa difícil fase do Brasil. Essa música se tornou conhecida graças à maravilhosa interpretação de Elis Regina, que introduziu alma e um sentimento inigualável de dor e esperança, ao interpretar essa bela obra de arte escrita por mãos tão habilidosas.

Belchior nos trouxe uma clara noção do dia a dia da Ditadura. Sua canção conseguiu chegar ao mais íntimo sentimento de tristeza, decepção, desilusão, mas também de esperança.

Vamos ao contexto histórico:

O cenário em que a música foi escrita era sombrio. A Ditadura Militar já seguia para o seu 12º ano. A mais de uma década que os brasileiros não sabiam o que era a palavra “liberdade de expressão”. Os militares governavam com rigor e severidade. O Brasil se tornou um quartel com dimensões continentais. Diversos atos institucionais já haviam sido decretados. Dentre eles o que dava o controle do país aos militares, o que pôs fim a pluripartidarismo e instituição de apenas dois partidos: ARENA e MDB. E o principal: o Ato Institucional nº 5 que suspendeu os trabalhos do Legislativo brasileiro.

Agora analisaremos a canção com os olhos da História:

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Na primeira parte da música, o autor fala da experiência do personagem. É a História do Brasil sendo contada com os olhos daquele que a viveu. Não é uma História idealizada ou fantasiada por aqueles cantores alheios à situação política do país. Neste ponto, provavelmente, o autor faz uma severa crítica aos cantores do movimento muito famoso da época que se chamava “Jovem Guarda”. Os artistas que eram contrários à Ditadura Militar, criticavam a “Jovem Guarda” por afirmarem que eles compunham músicas completamente alienadas ao contexto político-social do Brasil. Mais tarde, Roberto e Erasmo Carlos desmentiram essa afirmação.

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Neste ponto, o autor já embarca no sentimento de repressão que a Ditadura impunha ao cidadão. Por mais que todos tivessem sonhos, não era possível que fossem realizados, pois a sociedade estava formatada para que tudo ocorresse de acordo com o planejamento militar. As pessoas deviam seguir suas vidas conforme as ordens emanadas pelo governo.

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

A vigilância e a opressão se tornam uma realidade cotidiana nas ruas do país. Qualquer aglomerado de pessoas é reprimido e dispersado. Para a força policial, essas atitudes são necessárias para melhorar a segurança do cidadão. Para os reprimidos é um ato arbitrário que priva o ser humano de sua liberdade. Além disso, os jovens eram os mais perseguidos, tendo em vista sua natureza rebelde e contrária à ordem estabelecida. Na época, havia o perigo, segundo os militares, de uma onda comunista invadir o país e destruir toda a sociedade. E para que o Brasil não se tornasse um país comunista, a “Revolução Democrática” se fez necessária. Revolução Democrática é o termo utilizado pelos militares para designar a Ditadura Militar.

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Esse trecho é muito interessante, pois retrata uma confusão de sentimentos. A década de 70 é marcada por diversos acontecimentos que formatam o brasileiro e seu modo de pensar:

  1. Com o tricampeonato mundial de futebol em 1970, o Brasil se torna de uma vez por todas, o país do futebol. Fato até hoje, praticamente, inquestionável.
  2. A televisão se tornou uma realidade para o brasileiro. É uma revolução para o mundo da comunicação. O ser humano nunca mais foi o mesmo após a invenção da televisão.
  3. A década de 70 também viu o Brasil se tornar um país urbano. Pela primeira vez na História, o Brasil teve mais gente nas cidades que no meio rural. O Estado de São Paulo foi o que recebeu a maior quantidade de imigrantes, e o Nordeste foi a região que teve a maior quantidade de emigrantes. No sertão havia e há escassez de tudo e a cidade era e ainda é a melhor alternativa para fugir da pobreza.
  4. A esperança de novos ventos vindos de uma possível retomada do poder pelos civis nunca morreu, apesar de estar muito distante. Ou seja, as feridas do coração trazem tristeza, mas também a vontade de novos rumos. Como a música foi escrita em 1976, somente 9 anos depois é que o tão sonhado fim da Ditadura é que finalmente viria no ano de 1985.

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Como a Ditadura já durava cerca de 12 anos, não havia mais a juventude reunida sem que houvesse a repressão por parte dos agentes de segurança pública. Entretanto parte da população afirmava e ainda afirma que somente os “vagabundos” e “desocupados” eram perseguidos. Essa é uma frase muito ouvida e difundida. Entretanto deve-se deixar claro que muitos inocentes foram injustamente torturados e assassinados. De maneira alguma se pode justificar a violência em troca da segurança e da ordem.

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Aqui traz uma afirmação muito decepcionante: a geração daqueles que viram o início da Ditadura não conseguiram inovar, renovar ou transformar nada. O Brasil parou no tempo. Entretanto, essa é uma visão de quem estava no meio da turbulência. Hoje é possível perceber que o mundo das artes se desenvolveu plenamente, mesmo às custas das vidas de muitos. Foi um período de grande efervescência artística em todos os ramos da cultura. Mas vale destacar que havia um forte controle por parte do Governo. A censura era implacável e injusta. Além disso, como os programas de rádio e televisão eram extremamente controlados, somente aquilo que passava pela censura é que poderia ser visto pelo público. Isso significa que não havia espaço para novos rumos ou para novas visões. Os ídolos ainda eram os mesmos!

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Mesmo diante de tanta repressão e opressão, o novo sempre vem. É a velha esperança que nunca morre. Na História, nada é para sempre. Tudo se transforma e se renova. A História não se estagna. Um dia a Ditadura haveria de acabar.

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Esse é um trecho que merece um destaque especial. A geração que viu o início da Ditadura perdeu a esperança. Mas, há uma nova geração que está pronta para lutar por uma nova consciência. Aqui, provavelmente, está inserida uma crítica à sociedade conservadora, que se esconde atrás de seus empregos e de suas denominações religiosas, sob o pretexto de estarem protegendo suas vidas e de seus filhos. “Guardado por Deus/ Contando o vil metal”.

Que música esplendorosa, impressionante, espetacular. Uma música que marcou época e que traduz o sentimento de gerações. É uma bela aula de História. Belchior, o pensador de tão grande obra de arte, com certeza merece ser lembrado por gerações e gerações.

Aproveite e leia um artigo muito interessante escrito por Djane Assunção, no endereço eletrônico que se encontra nas referências abaixo. Ele conseguiu expressar de maneira muito inteligente os significados desta música.

Agora é possível perceber o peso histórico que essa obra prima nos apresenta. Ao ouvir uma música, tente perceber as marcas de historicidade que ela apresenta. Vocês irão reparar que em tudo há um pedaço de História.

Fica a dica!!!!!

Quer saber mais? Leia:

COÊLHO, Denilson Alexandre. A História do Brasil em 20 minutos. eBook. Dicas de História, 2017.

CALÓGERAS, João Pandiá. Formação histórica do Brasil. 7ª edição. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 1972.

CARVALHO, José Murilo de.. Cidadania no Brasil: O longo caminho. 14 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

DELGADO, Lucília de Almeida N. O Brasil Republicano. Rio de Janeiro, RJ: Editora Civilização Brasileira, 2008.

Site: Abstracionando Pensamentos:

http://abstracionandopensamentos.blogspot.com.br/2015/02/extraindo-significados-como-nossos-pais_3.html

Site: Letras:

https://www.letras.mus.br/elis-regina/45670/

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